Ecovilas, Sustentabilidade e Consciência Planetária

Marcio Bontempo
Médico sanitarista, autor e Presidente do Movimento Brasileiro de Ecovilas.

As ecovilas, através de um sentido e um espírito de comunidade, podem restaurar em profundidade a dignidade humana.  Fritjof Capra

Hoje o tema da vez é “desenvolvimento sustentável”, porém são muitos os questionamentos sobre a real sustentabilidade de um desenvolvimento que tem como fundamento uma economia de mercado, cujas metas sejam apenas o crescimento material, a produção e o consumo. Para ser realmente sustentável, o desenvolvimento precisaria ser economicamente factível, ecologicamente apropriado, socialmente justo, mas essa não é a realidade que observamos hoje no mundo. Qualquer desenvolvimento que não levar em conta esses aspectos, será essencialmente insustentável.
Segundo a ONU, desenvolvimento sustentável é aquele que vai de encontro às necessidades do presente, sem comprometer o direito e a possibilidade das gerações futuras irem de encontro às suas. No entanto, constatamos hoje o contrário, pois nosso comportamento perante os recursos naturais finitos está pondo em risco a vida e a viabilidade das gerações vindouras. Por isso, desde meados do século passado, e agora no início do milênio, cresce o consenso de que, se quisermos sobreviver como espécie, temos que aprender a viver de forma adequada, sob a perspectiva de uma prosperidade não material, com valores humanistas e espirituais.
Nas últimas décadas tem crescido a compreensão de que a avaliação do PIB – Produto Interno Bruto dos países é inadequado como medida da felicidade humana. Com base nisso, existem propostas de mudança para paradigmas que se baseiem numa visão integrada, ou holística da vida. E nesse âmbito está o conceito das ecovilas.
Ecovilas são comunidades organizadas, preferencialmente rurais, compostas por pessoas que se identificam em ideais ou princípios, que procuram viverem harmonia com as leis naturais, através de um estilo de vida ambiental, economica e socialmente sustentável. No escopo das ecovilas estão itens como a produção orgânica dos alimentos, a geração de energia limpa, o destino adequado dos resíduos sólidos e líquidos, a reciclagem e o reuso, a economia solidária e de troca, a recuperação de áreas degradadas e a conservação das florestas e mananciais de água.
Hoje existe um movimento mundial de integração das ecovilas, que surgiu com o objetivo consciente de se caminhar em direção a uma sociedade de comunidades sustentáveis. Ele se consubstancia nos mesmos princípios e bases das mais recentes conferências das Nações Unidas, desde a Eco 92, no Rio de Janeiro. Em 1995, num encontro histórico realizado na Fundação Findhorn, o conceito de ecovilas foi discutido amplamente, definido e lançado globalmente. Nessa ocasião, foi estabelecida a Global Ecovillage Network – GEN (Rede Global de Ecovilas), com um secretariado internacional na Dinamarca e três regionais: nos EUA, cobrindo as Américas, na Austrália, cobrindo a Oceania e a Ásia e na Alemanha, cobrindo o continente Europeu. Milhares de pessoas aderiram à ideia e formaram ou procuraram ecovilas para viver, centenas de iniciativas e eventos uniram-se à Rede desde sua criação, criando um conceito que tem sido chamado globalmente de “revolução do habitat”.
Segundo a Global Ecovillage Network “Ecovilas são comunidades rurais ou urbanas de pessoas que buscam integrar um ambiente social assegurador de um estilo de vida de baixo impacto ecológico. Para atingir este objetivo, as ecovilas integram vários aspectos do projeto ecológico, permacultura, construções de baixo impacto, produção verde, energia alternativa, práticas de fortalecimento de comunidade e muito mais”.
Segundo Jonathan Dawson, educador e autor na área de sustentabilidade, residente na ecovila Findhorn, na Escócia, as ecovilas estão engajadas na transformação de valores, com base em quatro pilares que alimentam a mudanças de paradigmas da civilização:
• Desvincular crescimento de bem-estar.
• Reunir as pessoas do lugar onde vivem.
• Afirmar valores e práticas nativos.
• Propor uma ética educacional holística e experimental.
Sob nosso ponto de vista, são três as bases conceituais que sustentam a ideologia das ecovilas:
1- A vida em harmonia com a natureza e suas leis.
2- A convivência fraterna e solidária.
3- Um estado de consciência elevada.
Esses pilares e essas bases tem motivado o surgimento de comunidades que buscam uma vida fundamentada numa relação harmônica com as leis da vida. Com o aprofundamento da crise econômica, ecológica e social, diversas experiências conduzidas pelas ecovilas estão agora tendo sua relevância cada vez mais reconhecida por setores bem mais amplos do que aqueles limitados aos mais radicais e à margem do sistema.
Uma das propostas do movimento mundial das ecovilas é o “êxodo urbano”, com foco no assentamento humano em área rural. As cidades são locais complexos, geradores de excessos de resíduos, de poluição, de violência, além de outros fatores que afetam principalmente a saúde humana e animal. Há muitos projetos e iniciativas em andamento para reverter o impacto de uma grande, média ou pequena cidade sobre o meio ambiente, porém, se as cidades não pararem de crescer, pois mais eficazes que sejam essas iniciativas (incluindo reciclagem de lixo, produção de energia limpa, tecnologias redutoras da poluição, etc.) cada novo metro de uma cidade que se desenvolve destruirá alguma coisa na natureza, agredirá gradativamente o meio ambiente de alguma forma e afetará a saúde humana de algum jeito.
Os aglomerados humanos, principalmente nas megalópoles, expressam um quadro degradante, marcado pela vida agitada, trânsito caótico, estresse, violência, má qualidade de vida, onde, freneticamente, as pessoas buscam a felicidade e o bem-estar, porém adotando um comportamento que as afasta cada vez mais disso.
A filosofia que alimenta o ideário das ecovilas, mostra que um pequeno grupo humano, habitando um espaço geográfico de modo ordenado e planejado, consciente e respeitoso, é a forma de se viver menos impactante possível e realmente sustentável.
O Brasil, pela sua riqueza e exuberância de biodiversidade, é um país de vocação natural para a formação o incremento de ecovilas, sendo que aqui existem muitas, inclusive algumas com mais e vinte anos de existência. Temos aqui o Movimento Brasileiro de Ecovilas, que nasceu em 2011 e tem como finalidade a integração das comunidades brasileiras e estas com o movimento internacional.
A ideologia do Movimento Brasileiro de Ecovilas é a promoção da transição da sociedade para formas sustentáveis de vida e de uma mentalidade global integrada, fundamentada em um modelo de ética compartilhada, uma cultura de paz e uma perspectiva planetária de cidadania.

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